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Leane e Eylan superaram, juntos, os altos e baixos da vida

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leane_eylan_webEles formaram união rara nos dias atuais. Se conheceram jovens, e completariam 55 anos de união em janeiro de 2015. Juntos, superaram as arguras da perseguição política aos petroleiros pela ditadura militar implantada em 1964, bem como os altos e baixos da vida profissional. Tiveram quatro filhos.

Numa ensolarada tarde de 11/12/14, em Niterói, Leane Magalhães Soares Pinto, viúva do saudoso anistiado e diretor da Conape, Eylan Soares Pinto (falecido a 19/11/14), recebeu a equipe da Conape para conceder entrevista sobre a vida conjugal com Eylan. Se conheceram muito jovens, o casamento completaria 55 anos em janeiro de 2015. Daí a força para, juntos, superar às dificuldades que viveram durante a perseguição política aos petroleiros pela ditadura militar implantada em 1964, bem como os altos e baixos da vida profissional.

Leane, mesmo emocionada, demonstrou ser uma mulher de fibra e falou com muita altivez, honra e agradecimento à vida por ter sido esposa de Eylan Soares Pinto. Participaram da entrevista o amigo da família, José Luiz Rodrigues, consultor da Conape; o gerente administrativo da entidade, Armindo Miguel Filho; e o jornalista José Carlos Moutinho. Em determinado momento, a filha do casal, Helena, participou da entrevista e discorreu algumas palavras sobre os pais e irmãos. Leane e Eylan geraram quatro filhos, a família é numerosa, mais de 20 pessoas que periodicamente se reúnem para confraternizar.

Ela sublinhou que nunca estamos preparados para a perda da pessoa amada. “Mas o que conforta a gente um pouco é saber que o Eylan foi um pessoa espetacular, e que onde se encontra agora está muito bem. (…) As pessoas em nossa volta, também, só elogiam ele, ainda que não tenha sido uma pessoa perfeita – ninguém é. Mas entre as qualidades e os defeitos, as qualidades prevaleciam mais que os defeitos”.

Falecido aos 85 anos, Eylan teve vida profissional apaixonada pela contabilidade, seja na Petrobrás, em outras empresas e nos trabalhos autônomos. Na Conape, ele se destacou pela dedicação às contas da entidade, pelo menos duas vezes por semana Eylan comparecia à entidade para prestar sua colaboração, que fazia com satisfação. Esta é a avaliação dos familiares, amigos e companheiros de Conape.

Leane declarou que Eylan teve uma vida (e velhice) tranquila e de qualidade, mesmo com os altos e baixos da vida. “Teve uma vida ativa, sempre comparecia à Conape para colaborar, mesmo com o problema da perna”.

Ela começou a trabalhar cedo, aos 18 anos de idade, no comércio, notadamente na revendedora de veículos da Ford, Niterói Automóveis. Depois conseguiu passar em concurso para a Caixa Econômica Federal, onde, entre outros cargos, foi chefe de departamento (também ligada à contabilidade, como o marido). Esses foram os seus únicos empregos. Ela é aposentada pela Caixa.

Em 1964, quando do golpe militar, Leane já era casada com Eylan e acompanhou a trajetória dele na área de contabilidade da Refinaria Duque de Caxias (Reduc). Com a intervenção militar, ele ficou sumido e Leane foi morar com a mãe. Cerca de três meses depois, Eylan se entregou aos militares e foi preso (por alguns dias) na Fábrica de Borracha (Fabor), em Duque de Caxias.

Ele não foi agredido pelos militares, declarou Leane, mas ficou preso numa sala isolada, sem colchão, sem cadeira e nenhum outro suporte. Ele já tinha o problema na perna, o que não é difícil intuir que Eylan passou muitas dificuldades naquela situação. “Ele não sofreu tortura física, mas psicológica, por conta de uma série ininterrupta de perguntas para saber sobre as ligações dele”. Eylan foi amigo do pensador Leandro Konder, que também sofreu muito à época com a ditadura.

Demitido da Petrobrás, ele foi trabalhar como autônomo e depois foi beneficiado com a Lei de Anistia (1979). Ela disse que seu esposo foi tesoureiro do Sindicato dos Petroleiros de Duque de Caxias, um dos motivos para sua prisão pela ditadura.

Leane e José Luiz foram unânimes em declarar que Eylan foi uma pessoa convicta em seus ideais, sabia o que queria. “Eylan e seus companheiros acreditavam naquilo que faziam, tinham um ideal. As pessoas que ficaram aqui no Brasil padeceram mais que os militantes que foram para o exterior (exilados)”, sublinhou Leane.

José Luiz lembrou que o anistiado tinha declarado conseguir muito trabalho em contabilidade, por conta do Brasil nas décadas 1970 e 1980 viver eivado de indexadores monetários. Entre outros, Eylan trabalhou na Abolição Veículos e para o ex-ministro Luís Gonzaga do Nascimento e Silva (Trabalho e Previdência Social, de 1974 a 1979*).

Segundo Leane, ele participou ativamente da luta pela anistia política dos petroleiros e não demorou a conquistar a anistia. Na década de 1980 retomou o trabalho na Petrobrás, no Edifício-Sede da Avenida Chile, Centro do Rio, e se aposentou antes do Governo Collor.

Leane viveu alguns momentos de instabilidades da Caixa Econômica, até que mudanças na administração do banco resultaram em melhorias para todos os empregados. Ela sublinhou que um dos problemas da Caixa, hoje, é ter muitos empregados terceirizados, coisa que não ocorria no passado. “Hoje tem mais chefes (gerentes) do que empregados”.

Participar da Conape

Em relação à sua participação nas atividades da Conape, Leane disse que procurará estar mais presente, pois tem sido muito convidada, inclusive teve o incentivo do Eylan. “Eu preciso estar a par das coisas que acontecem. Eylan participava e me informava tudo. Ele dizia para ler o jornal da Conape, entre outras coisas. Mas ele deixou tudo muito organizado, eu não tive problema nenhum”.

Ao final da entrevista, ela ressaltou que ele não abandonava a Conape, só diminuiu a intensidade do trabalho por conta do agravamento da doença na perna. Mas contribuiu com a entidade até novembro desse ano.

* Governo Geisel, conforme cita a Biblioteca da Presidência da República.

Texto e foto: José Moutinho/Conape Notícias nº 21 (nov-dez/2014).

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